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sábado, novembro 21, 2015

Cristo Rei!


                                                    Cristo Rei  B    2015
   Parece um contrassenso, e a muitos dará para rir, festejarmos Cristo Rei! Se as igrejas dos seus seguidores estão em decadência… se a civilização, que ainda conta o tempo a partir dele, já não respeita o seu dia nem as suas palavras… se, como é evidente, as “verdades” que governam o mundo parecem ser outras?!  Até parece repetir-se a cena do tribunal de Pilatos: tu és o Rei dos judeus? ! Que engraçado! Olha o que o teu povo diz e te faz!                                                                       
             É cada vez mais compreensível a resposta de Jesus: “O meu reino não é deste mundo”! Neste mandais vós, e por isso anda assim! O meu Reino é de outra ordem e dimensão. É o reino da Verdade. E eu vim ao mundo para dar testemunho da verdade. E quem é da Verdade escuta a minha voz, entrará no meu reino … sem deixar de pertencer à república deste mundo.
   Assim, Jesus não é concorrente às eleições do mundo. Ele reina onde há Verdade. Onde há verdade sobre Deus, traduzida em fé e culto sinceros e escuta da sua vontade; onde há verdade sobre a dignidade da pessoa humana, traduzida em respeito pela vida, pelos direitos das pessoas, pela igualdade e justiça, pela fraternidade e paz, por leis justas…; Ele reina onde há verdade sobre o mundo, concretizada no respeito pela natureza e suas leis, no seu bom uso e gestão em favor de todos os humanos … 
   Por isso, é bom para os homens que Jesus seja Rei, já agora. Essa é a tarefa da Igreja ao longo dos séculos: traduzir a verdade, os ensinamentos de Jesus para os aplicar à vida humana concreta e assim contribuir para um mundo melhor. É a tarefa evangelizadora e educadora da Igreja que ao longo dos tempos foi capaz de subsistir e ser compatível com todos os regimes políticos dos homens, sendo neles, por dentro, fermento de melhoria e purificação. Porque o reino que anunciamos e fazemos é o reino da Verdade, em cada coisa, pessoa, família ou sociedade.
   Por isso, este dia tem sido celebrado na Igreja como o dia do nosso compromisso cristão no mundo. “É preciso que Ele reine!” –foi o lema escolhido por D.João O Matos, para a liga que fundou. E continua a ser o motivo de todas as intervenções sociais do papa e da Igreja em todo o mundo: porque o Reino de Deus (que é de outro mundo, melhor, mais perfeito) pode e quer já melhorar, aperfeiçoar a nossa vida humana…através da “militância” activa, pacífica e fraterna, de cada cristão.
   GS.40 “ Nascida do amor do Pai eterno, fundada no tempo por Cristo Redentor, reunida no E.Santo, a Igreja tem uma finalidade salvífica e escatológica que só pode ser plenamente alcançada no mundo futuro. Todavia, já está presente aqui na terra formada por homens, membros da cidade terrestre, que são chamados a formar, no seio da história humana, a família dos filhos de Deus, que deve aumentar até à vinda do Senhor. Unida em vista dos bens eternos e enriquecida com eles, esta família foi constituída e organizada neste mundo, por Cristo, como uma sociedade com meios de assegurar uma união visível e social. Sendo, ao mesmo tempo, assembleia visível e comunidade espiritual, a Igreja caminha a par da humanidade. Compartilha da sorte terrena do mundo e a sua razão de ser é actuar como fermento e como alma da sociedade, que deve renovar-se em Cristo e transformar-se na família de Deus".                                                                                                    Esta compenetração da cidade terrena e da cidade celeste só pode ser percebida pela fé…Mas a Igreja, ao procurar o seu fim próprio de salvação, não só comunica ao homem a vida divina, mas ainda projecta sobre o universo o reflexo da sua luz, sanando e elevando a dignidade da pessoa humana, firmando a coesão da sociedade e dando à actividade diária dos homens um sentido e um significado mais profundos. Desta forma a Igreja, através dos seus membros e da comunidade que é, crê que pode contribuir muito para tornar cada vez mais humana a família dos homens e a sua história”.                                                                                                                                                 Daqui a importância da presença de cristãos verdadeiros e activos, em todos os sectores da vida humana: na política, cultura, economia, desporto... Com o seu proceder consciente e cristão serão fermento para humanizar e aperfeiçoar essas áreas da vida humana.
 O profeta Daniel e o Apocalipse apontam ao futuro. À plenitude, perfeição e eternidade desse reino de Cristo. Porque é também homem, Ele é a primeira criatura, em dignidade e perfeição. Pela sua morte e ressurreição tornou-se princípio, cabeça da nova criação: Nosso Rei para sempre, na pátria definitiva e perfeita de Deus Pai, o Céu.
  Felizes seremos um dia,e para sempre, se agora pertencermos e militarmos por Cristo Rei.
                                                                                                                              (Pe. António Coelho)

sábado, novembro 07, 2015

O Juízo (CIC.1021 ss)

                                                     32º Domingo Comum B ,  2015       
    Comove-nos  a confiança ilimitada da viúva na palavra do profeta Elias que lhe alcança de Deus o alimento diário, até ao fim daquela época de fome. E a viúva do Evangelho obtém o elogio de Jesus por ter lançado, confiante, na caixa das esmolas, as duas pequenas moedas de que tanto necessitava.
     Inversamente, Jesus adverte seriamente os escribas pelo seu orgulho e presunção, por enganarem e roubarem os pobres, por julgarem até comprar os favores de Deus com as suas esmolas avultadas. "Hão-de receber recompensa tanto mais severa" - adverte Jesus.
     Dois retratos de então, plenos de actualidade hoje. As desigualdades gritantes; as injustiças escandalosas sem penalização; a corrupção descarada; a exploração económica e ideológica dos mais fracos; Indignante e revoltante!  Mas será possível que tanta mentira e maldade vençam? Será que a lei da selva, do mais forte, é o princípio supremo da vida social?
     Desde sempre –porque é natural- os humanos não podem conformar-se com isso e exigem outra instância de Justiça, outro Juiz que nos dê por bem empregue as lutas pelo bem, pela verdade e pela honestidade com que procuramos viver. Dizem-no as gravuras e os papiros egípcios e os ritos funerários de tantos povos.                                      
Se, no Domingo, afirmámos a nossa fé no futuro feliz de todos os Santos, os que em vida cresceram na amizade e fidelidade a Deus,  hoje consideramos a questão escatológica, final, do Juízo ou Julgamento,  como professamos: " de novo há-de vir em sua glória para julgar os vivos e os mortos".
     Já os profetas do AT, falam muito deste tema, com alguma imaginação: perante as injustiças e opressão ao seu povo, há-de chegar um dia em que Deus julgará os homens e a história. Para o povo fiel será um dia e destino de triunfo e glória; para os maus será um dia e destino de trevas e castigo. (Dn.12)
     Também na pregação de Jesus este tema está muito presente. Várias parábolas nos falam deste julgamento, desta vitória final e definitiva da verdade sobre a mentira, do bem sobre o mal, que será, simultâneamente, decisão definitiva sobre o futuro eterno de cada pessoa: será como o trigo, recolhido e o joio que será queimado; será como o senhor que ajusta contas com os seus empregados, premiando os fiéis e expulsando os que não renderam; como um banquete de casamento onde só participarão os que souberam aguardar e estar preparados; etc. (Cf.Mt.25)
  Acarta aos Heb. hoje, recorda que Jesus, Deus e homem, ressuscitado, entrou no Céu para ser nosso advogado junto do Pai. Pois o destino dos homens é morrer uma só vez, e depois vem o julgamento.".. e Jesus lá estará “para salvar aqueles que esperam por Ele”.
   Na fé e catequese da Igreja o Juízo ou Julgamento  foi-se distinguindo e apresentando, em dois níveis diferentes. O Juízo particular e o Juízo final ou universal.                                                               O Juízo particular, na morte, poderemos entendê-lo como esta iluminação e auto-avaliação da minha vida, face a Cristo. Auto-avaliação que decidirá para sempre o meu destino de salvação ou de condenação. Porque a morte põe fim à vida humana como tempo de liberdade e responsabilidade; tempo próprio ao acolhimento ou rejeição da salvação de Deus, manifestada e oferecida em Cristo. Esse Juízo  não é decisão nem imposição de um destino alheio e contrário à minha vontade. Será antes a palavra final, a última palavra, irreversível,  acerca  do bem ou do mal que fui escolhendo. No fundo, esse juízo não será uma decisão nova e estranha às minhas opções de liberdade durante a vida. O Evangelho de João esclarece várias vezes: o nosso julgamento vai-se já fazendo na nossa vida, consoante acreditamos ou não em Jesus e vivemos segundo a sua palavra." Deus amou tanto o mundo que entregou o seu filho único...Quem nele crê não é julgado; quem não crê já está julgado, pois não acreditou no nome do filho único de Deus." (Jo.3,16s)  E Mt. recolhe as palavras de Jesus: Vinde benditos, porque tive fome, sede… e me assististes. 
     Mas, a Bíblia fala ainda mais do Juízo universal. Fazemos parte da família humana e da sua história. Somos senhores e responsáveis da criação. Diz o Cat.: "O juízo final acontecerá com a manifestação ou vinda gloriosa de Jesus, no termo da história. Como e quando? Só Deus o sabe. Por seu filho Jesus, Ele pronunciará então a sua palavra definitiva sobre toda a História. Nós conheceremos então a Verdade e o sentido último de toda a obra da criação e de toda a história; conheceremos os caminhos admiráveis pelos quais a Providência de Deus guiou todas as coisas até ao seu fim último. O Juízo final revelará, que a justiça de Deus triunfa sobre todas as injustiças cometidas pelos homens e que o Seu amor é mais forte do que a morte". 
    A fé no Juízo é um convite ao empenhamento e esforço pela verdade e o bem, mesmo incompreendidos e sacrificados, na certeza de que cada gesto, por mais simples que seja, terá um valor decisivo de Eternidade.                  (Pe. António Coelho)

sábado, outubro 17, 2015

Mistério da Redenção


                                      29º Domingo Comum  B   2015      
   Um dos sinais da veracidade dos evangelhos; uma das provas de que não foram escritos para louvar alguns heróis e enganar as pessoas, é o facto de eles relatarem alguns casos interessantes que deixam mal os discípulos. Hoje S.Marcos (10,35-45) conta um deles. Fala do atrevimento, da pouca vergonha ou ingenuidade de Tiago e João,que vão pedir a Jesus que, na Sua Glória, eles possam sentar-se à sua direita e à sua esquerda. Nem mais! Os dois vice-reis! É fácil imaginar a indignação dos outros discípulos.   É assim que pensamos como humanos …Cenas a que assistimos diariamente nos debates e combates políticos dos nossos dias, com as consequências  que todos conhecemos!
    Jesus vem ensinar o caminho contrário: para o verdadeiro sucesso e para a verdadeira e definitiva  glória, o verdadeiro caminho não é servir-se dos outros, pisar e passar por cima, mas servir, deixar-se pisar e morrer… por amor a Deus e aos outros. Esse foi o Seu caminho e é aquilo que nos manda.
    A leitura de Is.53,10-11 e de Heb.4,14-16 tratam precisamente deste tema central da nossa fé: a Redenção/Salvação. Fomos salvos pela paixão, morte e ressurreição de Cristo.  
   Tentemos entrar nesta questão central da nossa fé. É sabido e evidente que o pecado humano que começa na consciência, na nossa opção, e se concretiza em actos, pessoais e colectivos, gera uma onda de mal estar, desordem, doença e morte. S.Gregório de Nissa fala assim: “ Enferma, a nossa natureza precisava de ser curada; decaída, precisava de ser elevada; morta, precisava de ser ressuscitada. Tínhamos perdido a posse do bem; era preciso que nos fosse restituído. Encerrados nas trevas , precisávamos de quem nos trouxesse a luz; cativos esperávamos um salvador; prisioneiros esperávamos um auxílio; escravos, precisávamos um libertador. Seriam razões sem importância? Não seriam suficientes para comover a Deus a ponto de O fazer descer até à nossa natureza humana para a visitar, já que a humanidade se encontrava em estado tão miserável e infeliz?” (CIC 457)
    Claro que Deus se comoveu: “Deus amou tanto o mundo que lhe deu o Seu Filho unigénito, para que todo aquele que acreditar não pereça mas tenha a Vida eterna”(Jo.3). Foi este amor que levou Jesus ao máximo do sofrimento humano, até ao extremo da morte. Aí, pela maneira como Ele sofreu, em liberdade e amor, converteu o sofrimento em amor, em prova e alimento do amor. Não é o sofrimento, enquanto tal, que nos salva! Deus, nem ninguém, tem gosto no sofrimento. O que nos salvou foi o Amor com que aceitou o sofrimento, o viveu e o superou.
    Foi assim que Cristo nos salvou: entrando no coração do Mal e transformando-o em Bem, pelo poder do Amor. Ele não foi mais um sumo sacerdote que fizesse sacrifícios de animais para expiar os pecados humanos (Heb): ele fez em Si mesmo a experiência de todas as provações, sofrimento e morte; assumiu-as livremente, por amor a nós, e assim as tornou sacrifício agradável e eficaz em nosso favor, para Deus.
    Mas Deus precisa e exige que soframos para expiarmos os nossos pecados? Não! O sofrimento e dificuldades da vida são, em primeiro, consequência da vida, do que somos como humanos ou fruto das nossas decisões, por vezes de pecado. Mas, pode ser também uma “exigência natural” da nossa necessidade de reparação. Quando amamos alguém que ofendemos sentimos necessidade de fazer algo para provar o nosso sentimento de culpa e arrependimento, para reparar o mal cometido. O sacrifício expiatório não é exigência de Deus, que é amor e misericórdia: é exigido, sentido como necessário, por nós, pecadores,- como prova de honra!- em resposta à misericórdia de Deus.
   Assim, o verdadeiro Servo de Deus(Is.), tomou sobre si as nossa faltas, assumiu por nós a culpa da nossa desobediência a Deus; sendo inocente, sofreu a consequência dos nossos pecados, o sofrimento e a morte.  Obedeceu plenamente ao Pai (porque nós tínhamos desobedecido)  e assim afirmou –com palavra de honra! – que doravante, unidos a Cristo pela sua humanidade, seremos seus filhos.  Justificou a multidão humana –ganhando para nós a benevolência/justiça/perdão e Vida Eterna.
     Esta é a notícia, essencial e radical; o Evangelho, a Boa nova que a Igreja tem a Missão de levar a toda a humanidade, a toda a História. Neste Domingo pensamos e afirmamos a necessidade e urgência desta tarefa universal que diz respeito a todos os cristãos, cada qual a seu modo.                    Pe. António Coelho
 

sábado, outubro 10, 2015

Sabedoria... para Viver!


                                       28º Domingo comum B     2015  
   A Palavra de hoje abriu com a oração do rei Salomão pedindo a Sabedoria (7,7-11) para bem dirigir o seu povo. Na Bíblia, a Sabedoria é a virtude humana, reforçada pela fé e inspiração divina, de decidir e agir com prudência e sensatez, com inteligência e boa vontade, procurando a verdade e o verdadeiro bem das pessoas e do mundo, segundo a vontade de Deus.
   Por isso essa Sabedoria é mais preciosa que o poder do ceptro e do trono, que o oiro e riqueza; até mais que a saúde e beleza. Pela Sabedoria alcançamos os verdadeiros bens, que são essenciais à vida pessoal e comunitária, agora e para o futuro.
    Uma boa prova disto é-nos dada pelo Papa Francisco na sua encíclica “Louvado sejas”. Ela é um alerta constante, em todas as suas páginas, para a falta de sabedoria e sensatez em gerirmos a vida do planeta e de todos os humanos. Ao denunciar os crimes ambientais, a destruição da vida, o esgotamento dos recursos, a desigualdade e injustiça gritante que ameaça a paz mundial… ele vai apontando as causas profundas e o remédio difícil de tudo isto: o egoísmo, a sede de lucro e de bem estar, o esquecimento de Deus e dos outro. Claro que o remédio está em mudar o nosso género de vida, a sobriedade e alguma austeridade, pensando nos outros e no futuro dos nossos; em adquirir valores  morais que respeitem Deus e o seu projecto sobre a criação.  Em cada página está clara a falta de sensatez e sabedoria – apesar da muita inteligência e poder técnico que possuímos – que vai levando a natureza ao esgotamento e a humanidade ao caos.
    A carta aos Heb. (4,12-13) reforça e esclarece. A verdadeira sabedoria vem-nos da escuta, reflexão  e cumprimento da Palavra de Deus. Ela dá-nos a capacidade de conhecer em profundidade e pormenor a verdade sobre as coisas, sobre a vida e sobre as pessoas e agir de forma acertada. E será por ela, por essa Palavra, seguida ou rejeitada, que um dia seremos avaliados. Porque a Palavra, afinal, é o próprio Jesus, Filho de Deus incarnado, que um dia nos julgará.
    No Evangelho (Mc.10,17-27)  temos um exemplo bem concreto e subimos de nível. A sabedoria de bem viver não importa só para agora nos entendermos. Ela é condição e caminho para a Vida Eterna, plena, como perguntava um homem a Jesus e este lhe confirma. E o essencial deste saber viver bem está no código dos dez mandamentos …que o homem até já cumpria.
    Mas havia um “senão”! Aquele homem cumpria bem a Lei, mas o seu coração estava preso aos bens; a sua riqueza ameaçava prendê-lo mais a esta vida do que a libertar-se para a Vida Eterna. Por isso Jesus adverte-o: Falta uma coisa! Troca o tesouro da terra pelo do céu: usa os teus bens para amar e fazer o bem. E o homem amuou e voltou para casa!
   Neste contexto volto à Encíclica do Papa, nº 231: “O amor, cheio de pequenos gestos de cuidado mútuo, é também civil e político, manifestando-se em todas as acções que procuram construir um mundo melhor. O amor à sociedade e o compromisso pelo bem comum são uma forma eminente de caridade, que toca não só as relações entre os indivíduos, mas também as macrorrelações como relacionamentos económicos sociais e políticos. Por isso a Igreja propôs ao mundo o ideal de uma civilização do amor. O amor social é a chave para um desenvolvimento autêntico … Neste contexto, juntamente com a importância dos pequenos gestos diários, o amor social impele-nos a pensar em grandes estratégias que detenham eficazmente a degradação ambiental e incentivem uma cultura do cuidado que permeie toda a sociedade. Quando alguém reconhece a vocação de Deus para intervir, juntamente com os outros, nestas dinâmicas sociais, deve lembrar-se que isto faz parte da sua espiritualidade, é exercício da caridade e, deste modo, amadurece e se santifica”.                          Que bom seria que os nossos políticos alcançassem este nível de compreensão do serviço público!
   Muitos cristãos, jovens, homens, mulheres, famílias, são, por esse mundo, um bom exemplo desta acção cívica e sobrenatural, deste “vender e deixar tudo para dar-se”: são os que trabalham mais directamente no campo das Missões, e que neste mês especialmente lembramos e podemos ajudar.                                                                                                                               Pe. António Coelho
 

sexta-feira, outubro 09, 2015

A FAMÍLIA


                                         27º Domingo Comum B    2015     
   Em Roma começa hoje o Sínodo sobre a família, continuando o tema do ano passado. Bispos, sacerdotes e leigos de todo o mundo, levando a reflexão e a vida de inúmeros cristãos de todo o mundo, vão pôr em confronto o ideal da família que Deus quis e quer, e que é melhor para o ser humano … perante a realidade da família dos nossos dias, viciada por outros conceitos, destruída por um género de vida que esfarrapa o agregado familiar, e pelos Estados que, cada vez ,mais tomam posse das funções familiares, como donos de tudo e de todos, desde o berço à escola, do emprego à reforma,… até qualquer dia poderem ditar e marcar a nossa morte?!
    Perguntaram a Jesus, manhosamente, se era legítimo, quando o homem quisesses ou se fartasse, devolver a mulher aos sogros! Apoiavam-se numa lei de Moisés que teria tolerado o repúdio em certos casos.  E porquê? Jesus põe o dedo na ferida: foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés concedeu essa excepção. Isto é: o machismo de alguns maridos, a prática da infidelidade, a consideração da mulher como objecto de serviço e prazer …forçara a lei conceder-lhes o direito ao repúdio. A prática da vida tornou-se lei; a falha e a corrupção tornou-se legitimidade e valor.
    Jesus não se deixa levar. Por isso adianta: "no princípio", isto é: : no projecto inicial, no fundo dos corações, no auge do namoro, na alegria do casamento, não era assim que pensáveis!… porque então, com toda a alegria e paixão, o homem são uma só carne, uma só vontade,um só projecto; numa união natural, sagrada, que o homem e a sociedade não têm direito a destruir…pois se destrói a si mesmo e à sociedade. 
   Jesus reafirma assim o conceito de família - natural e universal-  que nos dá o relato de Gn.: homem e mulher formam um só; são iguais e da mesma natureza; necessitam-se e complementam-se; formam com os filhos uma "comunhão trinitária", sendo assim a melhor imagem de Deus-Família.   
     Estejamos atentos –e críticos!- às notícias que vamos ouvir nos próximos dias. Hoje acontece o mesmo. O mundo de hoje quer que Deus legitime, aprove e assine o que a nós nos apetece ser e fazer. Porque não queremos sujeitar-nos à lei de Deus inscrita na consciência e na Revelação , queremos que Deus se sujeite e aprove os nossos caprichos e falhas que, ainda por cima, com arrogância e atrevimento, julgamos mais humanos e modernos, sinal de liberdade e personalidade.  Até ao ponto de chegarmos à pretensão – e o mais que veremos ainda?!- de um forte movimento, hoje, a pretender que o ser humano não nasce homem nem mulher. Nasce de "género indefinido". Vai-se fazendo e escolhendo: se que ser homem, mulher ou misto.  A tal ponto quisemos a igualdade ... na educação, no vestir, no trabalho, nas funções sociais que chegámos à confusão de já nem sabermos o que somos. Esquecemos que nossa grandeza e dignidade pessoal, e a sorte e riqueza da sociedade, está precisamente em sermos diferentes e complementares e assim sermos mais ricos e completos pela comunhão.
   É evidente que uma coisa são os casos excepcionais e pontuais, que têm direito à diferença, merecem o nosso respeito e integração… outra coisa é a legitimação e igual valorização de hábitos e viveres marginais que se querem impôr como normais.
    Penso que a carta aos Hebreus nos dá a chave que explica muito disto. Diz que Jesus, ao incarnar, apesar de ser Deus e todo poderoso, de tudo poder resolver com facilidade, sem esforço, quis chegar à perfeição humana e à glória, pelo caminho da obediência a Deus, do esforço e do sofrimento.  Ora a nossa civilização quer chegar à perfeição/felicidade humana (?) pelo caminho da “autonomia, da independência" , do endeusamento pessoal, da afirmação incondicional dos direitos e apetites, da facilidade, do hedonismo, da abolição da cruz em todas as suas expressões … e, por isso, quer ignorar tudo o que seja fidelidade às opções e compromissos, responsabilidade, sofrimento pelos outros, especialmente no projecto comum dos filhos.
  Que o Sínodo nos traga algumas respostas a alguns problemas. E que as famílias redescubram a Verdade da sua grandeza... para salvação delas e da sociedade.               (Pe. António Coelho)

sábado, abril 04, 2015

RESSUSCITOU !!! ALELUIA !!!


        Domingo de Páscoa   2015    
       Acabou o teatro … religioso, a tradição cultural, o espectáculo turístico que encheu as ruas. Correram o pano, rolaram a pedra e fecharam o sepulcro. E cada um voltou para sua casa.
  Muitos discípulos de Jesus acabaram aqui. Para muitos a religião acaba aqui. Quando acaba a função religiosa, a procissão multitudinária, bonita e comovente.
    Hoje, uma notícia abalou alguns poucos, em Jerusalém. O palco voltou a abrir …a pedra apareceu rolada para o lado e, dentro, apenas resta o lençol que envolvera o cadáver de Jesus.
Que se passou?! Os chefes dos judeus mandam divulgar a explicação imediata: os discípulos de Jesus roubaram e esconderam o seu corpo. Mas, nem os discípulos sabem que dizer!!
   Ao longo de alguns dias eles voltaram às suas memórias. Nelas encontraram a explicação: “ao terceiro dia ressuscitarei!” . Na verdade, “ Deus ressuscitou-O e concedeu-lhe que se tornasse visível, não a todo o povo mas às testemunhas…a nós que comemos e bebemos com Ele” (Act.10). Jesus pertence agora a “outra dimensão” que só podemos captar e viver pela fé.
    De facto para entender a nova Realidade há que colocar os “óculos” da fé, que nos permitem perceber a outra dimensão da realidade. Como no cinema 3D , sem óculos próprios, a imagem aparece desfocada. Só com esses óculos entramos, nos sentimos envolvidos no cenário e na acção.
A Fé dá-nos a capacidade de ver além do espaço e do tempo, de sentir-nos envolvidos numa nova dimensão: a dimensão da Eternidade, da plenitude de Ser e Viver, a dimensão de Deus.
    A Ressurreição é esta passagem da nossa dimensão “do espaço e do tempo” que se encerra na morte, para a dimensão da Eternidade. Por ela, pela ressurreição, que no baptismo já vivemos sacramentalmente, “ a nossa vida está já escondida com Cristo em Deus “, pertencemos já “ao alto” à outra dimensão, à glória, que um dia se manifestará em nós (Col.3).
    Como muitos discípulos “nós sabemos o que sucedeu em toda a Judeia, depois do baptismo que João pregou”. Sabemos! Como Pedro e João nós corremos o caminho da Via sacra e vimos o sepulcro vazio. AGORA, DEPOIS DE VER, É PRECISO ACREDITAR , “para receber, pelo Seu nome, a remissão dos pecados”(Act.10). Só a fé, nos deixará ver o Invisível, a Terceira dimensão do que somos, a Eternidade que Jesus enxertou em nós no baptismo. É essa fé, essa relação de amor, e confiança em Jesus que podemos e temos de alimentar em cada dia, em “cada primeiro dia da semana”, em cada encontro semanal com Jesus ressuscitado: a Eucaristia.
                                               Só assim a Páscoa será acontecimento novo e definitivo, que nos faz pessoas novas e definitivas, porque estamos já enxertados na Eternidade e na Vida de Deus. Assim, de verdade, podemos dizer: BOAS  FESTAS  !!!                                                            (Pe. António F. Coelho)

sexta-feira, janeiro 30, 2015

Mensagem do Papa para a Quaresma 2015

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
PARA A QUARESMA DE 2015
 Fortalecei os vossos corações (Tg 5, 8)

Amados irmãos e irmãs,
Tempo de renovação para a Igreja, para as comunidades e para cada um dos fiéis, a Quaresma é sobretudo um «tempo favorável» de graça (cf. 2 Cor 6, 2). Deus nada nos pede, que antes não no-lo tenha dado: «Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro» (1 Jo 4, 19). Ele não nos olha com indiferença; pelo contrário, tem a peito cada um de nós, conhece-nos pelo nome, cuida de nós e vai à nossa procura, quando O deixamos. Interessa-Se por cada um de nós; o seu amor impede-Lhe de ficar indiferente perante aquilo que nos acontece. Coisa diversa se passa connosco! Quando estamos bem e comodamente instalados, esquecemo-nos certamente dos outros (isto, Deus Pai nunca o faz!), não nos interessam os seus problemas, nem as tribulações e injustiças que sofrem; e, assim, o nosso coração cai na indiferença: encontrando-me relativamente bem e confortável, esqueço-me dos que não estão bem! Hoje, esta atitude egoísta de indiferença atingiu uma dimensão mundial tal que podemos falar de uma globalização da indiferença. Trata-se de um mal-estar que temos obrigação, como cristãos, de enfrentar.
Quando o povo de Deus se converte ao seu amor, encontra resposta para as questões que a história continuamente nos coloca. E um dos desafios mais urgentes, sobre o qual me quero deter nesta Mensagem, é o da globalização da indiferença.
Dado que a indiferença para com o próximo e para com Deus é uma tentação real também para nós, cristãos, temos necessidade de ouvir, em cada Quaresma, o brado dos profetas que levantam a voz para nos despertar.
A Deus não Lhe é indiferente o mundo, mas ama-o até ao ponto de entregar o seu Filho pela salvação de todo o homem. Na encarnação, na vida terrena, na morte e ressurreição do Filho de Deus, abre-se definitivamente a porta entre Deus e o homem, entre o Céu e a terra. E a Igreja é como a mão que mantém aberta esta porta, por meio da proclamação da Palavra, da celebração dos Sacramentos, do testemunho da fé que se torna eficaz pelo amor (cf. Gl 5, 6). O mundo, porém, tende a fechar-se em si mesmo e a fechar a referida porta através da qual Deus entra no mundo e o mundo n'Ele. Sendo assim, a mão, que é a Igreja, não deve jamais surpreender-se, se se vir rejeitada, esmagada e ferida.
Por isso, o povo de Deus tem necessidade de renovação, para não cair na indiferença nem se fechar em si mesmo. Tendo em vista esta renovação, gostaria de vos propor três textos para a vossa meditação.
1. «Se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros» (1 Cor 12, 26): A Igreja.
Com o seu ensinamento e sobretudo com o seu testemunho, a Igreja oferece-nos o amor de Deus, que rompe esta reclusão mortal em nós mesmos que é a indiferença. Mas, só se pode testemunhar algo que antes experimentámos. O cristão é aquele que permite a Deus revesti-lo da sua bondade e misericórdia, revesti-lo de Cristo para se tornar, como Ele, servo de Deus e dos homens. Bem no-lo recorda a liturgia de Quinta-feira Santa com o rito do lava-pés. Pedro não queria que Jesus lhe lavasse os pés, mas depois compreendeu que Jesus não pretendia apenas exemplificar como devemos lavar os pés uns aos outros; este serviço, só o pode fazer quem, primeiro, se deixou lavar os pés por Cristo. Só essa pessoa «tem a haver com Ele» (cf. Jo 13, 8), podendo assim servir o homem.
A Quaresma é um tempo propício para nos deixarmos servir por Cristo e, deste modo, tornarmo-nos como Ele. Verifica-se isto quando ouvimos a Palavra de Deus e recebemos os sacramentos, nomeadamente a Eucaristia. Nesta, tornamo-nos naquilo que recebemos: o corpo de Cristo. Neste corpo, não encontra lugar a tal indiferença que, com tanta frequência, parece apoderar-se dos nossos corações; porque, quem é de Cristo, pertence a um único corpo e, n'Ele, um não olha com indiferença o outro. «Assim, se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros; se um membro é honrado, todos os membros participam da sua alegria» (1 Cor 12, 26).
A Igreja é communio sanctorum, não só porque, nela, tomam parte os Santos mas também porque é comunhão de coisas santas: o amor de Deus, que nos foi revelado em Cristo, e todos os seus dons; e, entre estes, há que incluir também a resposta de quantos se deixam alcançar por tal amor. Nesta comunhão dos Santos e nesta participação nas coisas santas, aquilo que cada um possui, não o reserva só para si, mas tudo é para todos. E, dado que estamos interligados em Deus, podemos fazer algo mesmo pelos que estão longe, por aqueles que não poderíamos jamais, com as nossas simples forças, alcançar: rezamos com eles e por eles a Deus, para que todos nos abramos à sua obra de salvação.
2. «Onde está o teu irmão?» (Gn 4, 9): As paróquias e as comunidades
Tudo o que se disse a propósito da Igreja universal é necessário agora traduzi-lo na vida das paróquias e comunidades. Nestas realidades eclesiais, consegue-se porventura experimentar que fazemos parte de um único corpo? Um corpo que, simultaneamente, recebe e partilha aquilo que Deus nos quer dar? Um corpo que conhece e cuida dos seus membros mais frágeis, pobres e pequeninos? Ou refugiamo-nos num amor universal pronto a comprometer-se lá longe no mundo, mas que esquece o Lázaro sentado à sua porta fechada (cf. Lc 16, 19-31)?
Para receber e fazer frutificar plenamente aquilo que Deus nos dá, deve-se ultrapassar as fronteiras da Igreja visível em duas direcções.
Em primeiro lugar, unindo-nos à Igreja do Céu na oração. Quando a Igreja terrena reza, instaura-se reciprocamente uma comunhão de serviços e bens que chega até à presença de Deus. Juntamente com os Santos, que encontraram a sua plenitude em Deus, fazemos parte daquela comunhão onde a indiferença é vencida pelo amor. A Igreja do Céu não é triunfante, porque deixou para trás as tribulações do mundo e usufrui sozinha do gozo eterno; antes pelo contrário, pois aos Santos é concedido já contemplar e rejubilar com o facto de terem vencido definitivamente a indiferença, a dureza de coração e o ódio, graças à morte e ressurreição de Jesus. E, enquanto esta vitória do amor não impregnar todo o mundo, os Santos caminham connosco, que ainda somos peregrinos. Convicta de que a alegria no Céu pela vitória do amor crucificado não é plena enquanto houver, na terra, um só homem que sofra e gema, escrevia Santa Teresa de Lisieux, doutora da Igreja: «Muito espero não ficar inactiva no Céu; o meu desejo é continuar a trabalhar pela Igreja e pelas almas» (Carta 254, de 14 de Julho de 1897).
Também nós participamos dos méritos e da alegria dos Santos e eles tomam parte na nossa luta e no nosso desejo de paz e reconciliação. Para nós, a sua alegria pela vitória de Cristo ressuscitado é origem de força para superar tantas formas de indiferença e dureza de coração.
Em segundo lugar, cada comunidade cristã é chamada a atravessar o limiar que a põe em relação com a sociedade circundante, com os pobres e com os incrédulos. A Igreja é, por sua natureza, missionária, não fechada em si mesma, mas enviada a todos os homens.
Esta missão é o paciente testemunho d'Aquele que quer conduzir ao Pai toda a realidade e todo o homem. A missão é aquilo que o amor não pode calar. A Igreja segue Jesus Cristo pela estrada que a conduz a cada homem, até aos confins da terra (cf. Act 1, 8). Assim podemos ver, no nosso próximo, o irmão e a irmã pelos quais Cristo morreu e ressuscitou. Tudo aquilo que recebemos, recebemo-lo também para eles. E, vice-versa, tudo o que estes irmãos possuem é um dom para a Igreja e para a humanidade inteira.
Amados irmãos e irmãs, como desejo que os lugares onde a Igreja se manifesta, particularmente as nossas paróquias e as nossas comunidades, se tornem ilhas de misericórdia no meio do mar da indiferença!
3. «Fortalecei os vossos corações» (Tg 5, 8): Cada um dos fiéis
Também como indivíduos temos a tentação da indiferença. Estamos saturados de notícias e imagens impressionantes que nos relatam o sofrimento humano, sentindo ao mesmo tempo toda a nossa incapacidade de intervir. Que fazer para não nos deixarmos absorver por esta espiral de terror e impotência?
Em primeiro lugar, podemos rezar na comunhão da Igreja terrena e celeste. Não subestimemos a força da oração de muitos! A iniciativa 24 horas para o Senhor, que espero se celebre em toda a Igreja – mesmo a nível diocesano – nos dias 13 e 14 de Março, pretende dar expressão a esta necessidade da oração.
Em segundo lugar, podemos levar ajuda, com gestos de caridade, tanto a quem vive próximo de nós como a quem está longe, graças aos inúmeros organismos caritativos da Igreja. A Quaresma é um tempo propício para mostrar este interesse pelo outro, através de um sinal – mesmo pequeno, mas concreto – da nossa participação na humanidade que temos em comum.
E, em terceiro lugar, o sofrimento do próximo constitui um apelo à conversão, porque a necessidade do irmão recorda-me a fragilidade da minha vida, a minha dependência de Deus e dos irmãos. Se humildemente pedirmos a graça de Deus e aceitarmos os limites das nossas possibilidades, então confiaremos nas possibilidades infinitas que tem de reserva o amor de Deus. E poderemos resistir à tentação diabólica que nos leva a crer que podemos salvar-nos e salvar o mundo sozinhos.
Para superar a indiferença e as nossas pretensões de omnipotência, gostaria de pedir a todos para viverem este tempo de Quaresma como um percurso de formação do coração, a que nos convidava Bento XVI (Carta enc. Deus caritas est, 31). Ter um coração misericordioso não significa ter um coração débil. Quem quer ser misericordioso precisa de um coração forte, firme, fechado ao tentador mas aberto a Deus; um coração que se deixe impregnar pelo Espírito e levar pelos caminhos do amor que conduzem aos irmãos e irmãs; no fundo, um coração pobre, isto é, que conhece as suas limitações e se gasta pelo outro.
Por isso, amados irmãos e irmãs, nesta Quaresma desejo rezar convosco a Cristo: «Fac cor nostrum secundum cor tuum – Fazei o nosso coração semelhante ao vosso» (Súplica das Ladainhas ao Sagrado Coração de Jesus). Teremos assim um coração forte e misericordioso, vigilante e generoso, que não se deixa fechar em si mesmo nem cai na vertigem da globalização da indiferença.
Com estes votos, asseguro a minha oração por cada crente e cada comunidade eclesial para que percorram, frutuosamente, o itinerário quaresmal, enquanto, por minha vez, vos peço que rezeis por mim. Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!

Vaticano, Festa de São Francisco de Assis, 4 de Outubro de 2014.

Francisco

quinta-feira, janeiro 22, 2015

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2015 - Dia 5


ANUNCIAÇÃO
Tu não tens sequer um balde e o poço é profundo (João 4,11)




Comentário
Jesus precisava de ajuda. Depois de uma longa caminhada, vem o cansaço. Exausto, exposto ao calor do meio dia, ele sente fome e sede. (Jo 4,6). Além disso, Jesus é um estrangeiro; é ele que está num território estrangeiro e o poço pertence ao povo da mulher. Jesus tem sede e, como diz a mulher samaritana, não tem balde para recolher a água. Ele precisa de água, ele precisa de ajuda: todos precisam de ajuda!
Muitos cristãos acreditam que somente eles têm todas as respostas e que não precisam da ajuda de ninguém. Perdemos muito quando mantemos essa perspectiva. Nenhum de nós pode chegar às profundezas do poço do divino e ainda assim a fé nos pede que nos aprofundemos no mistério. Não podemos fazer isso isoladamente. Precisamos da ajuda de nossos irmãos e irmãs em Cristo. Só assim poderemos mergulhar na profundidade do mistério de Deus.
Um ponto comum em nossa  fé, independentemente da Igreja a que pertencemos, é que Deus é um mistério além da nossa compreensão. A busca da unidade cristã nos leva ao reconhecimento de que nenhuma comunidade tem todos os meios de mergulhar nas águas profundas do divino. Precisamos de água, precisamos de ajuda: todos precisam de ajuda! Quanto mais crescermos na unidade, partilharmos nossos baldes e unirmos as partes de nossas cordas, mais profundamente mergulharemos no poço do divino.
A tradição indígena brasileira nos ensina a aprender com a sabedoria dos mais velhos e, ao mesmo tempo, com a curiosidade e a inocência das crianças. Quando estamos prontos para aceitar que realmente precisamos uns dos outros, nos tornamos como crianças, abertos para aprender. E é assim que o Reino de Deus se abre para nós (Mt 18,3). Precisamos fazer como Jesus fez. Precisamos tomar a iniciativa de entrar numa terra estrangeira, onde nos tornamos estrangeiros, e cultivar o desejo de aprender com o que é diferente.

Questões
  • 1. Você se lembra de situações em que sua Igreja tenha ajudado outra Igreja ou tenha sido ajudada por outra Igreja?
  • 2. Há reservas por parte da sua Igreja em aceitar ajuda de outra Igreja? Como isso pode ser superado?

Oração
Deus, fonte da água viva,
ajuda-nos a entender que, quanto mais unirmos as partes de nossas cordas,
mais profundamente nossos baldes chegarão até tuas divinas águas!
Desperta-nos para a verdade de que os dons do outro
são uma expressão do teu indefinível mistério.
E faze-nos sentar juntos à beira do poço
para beber da tua água,
que nos reúne em unidade e paz.
Isso te pedimos em nome de teu Filho Jesus Cristo,
que pediu à mulher samaritana que lhe desse água para a sua sede.
Amém.