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sábado, outubro 17, 2015

Mistério da Redenção


                                      29º Domingo Comum  B   2015      
   Um dos sinais da veracidade dos evangelhos; uma das provas de que não foram escritos para louvar alguns heróis e enganar as pessoas, é o facto de eles relatarem alguns casos interessantes que deixam mal os discípulos. Hoje S.Marcos (10,35-45) conta um deles. Fala do atrevimento, da pouca vergonha ou ingenuidade de Tiago e João,que vão pedir a Jesus que, na Sua Glória, eles possam sentar-se à sua direita e à sua esquerda. Nem mais! Os dois vice-reis! É fácil imaginar a indignação dos outros discípulos.   É assim que pensamos como humanos …Cenas a que assistimos diariamente nos debates e combates políticos dos nossos dias, com as consequências  que todos conhecemos!
    Jesus vem ensinar o caminho contrário: para o verdadeiro sucesso e para a verdadeira e definitiva  glória, o verdadeiro caminho não é servir-se dos outros, pisar e passar por cima, mas servir, deixar-se pisar e morrer… por amor a Deus e aos outros. Esse foi o Seu caminho e é aquilo que nos manda.
    A leitura de Is.53,10-11 e de Heb.4,14-16 tratam precisamente deste tema central da nossa fé: a Redenção/Salvação. Fomos salvos pela paixão, morte e ressurreição de Cristo.  
   Tentemos entrar nesta questão central da nossa fé. É sabido e evidente que o pecado humano que começa na consciência, na nossa opção, e se concretiza em actos, pessoais e colectivos, gera uma onda de mal estar, desordem, doença e morte. S.Gregório de Nissa fala assim: “ Enferma, a nossa natureza precisava de ser curada; decaída, precisava de ser elevada; morta, precisava de ser ressuscitada. Tínhamos perdido a posse do bem; era preciso que nos fosse restituído. Encerrados nas trevas , precisávamos de quem nos trouxesse a luz; cativos esperávamos um salvador; prisioneiros esperávamos um auxílio; escravos, precisávamos um libertador. Seriam razões sem importância? Não seriam suficientes para comover a Deus a ponto de O fazer descer até à nossa natureza humana para a visitar, já que a humanidade se encontrava em estado tão miserável e infeliz?” (CIC 457)
    Claro que Deus se comoveu: “Deus amou tanto o mundo que lhe deu o Seu Filho unigénito, para que todo aquele que acreditar não pereça mas tenha a Vida eterna”(Jo.3). Foi este amor que levou Jesus ao máximo do sofrimento humano, até ao extremo da morte. Aí, pela maneira como Ele sofreu, em liberdade e amor, converteu o sofrimento em amor, em prova e alimento do amor. Não é o sofrimento, enquanto tal, que nos salva! Deus, nem ninguém, tem gosto no sofrimento. O que nos salvou foi o Amor com que aceitou o sofrimento, o viveu e o superou.
    Foi assim que Cristo nos salvou: entrando no coração do Mal e transformando-o em Bem, pelo poder do Amor. Ele não foi mais um sumo sacerdote que fizesse sacrifícios de animais para expiar os pecados humanos (Heb): ele fez em Si mesmo a experiência de todas as provações, sofrimento e morte; assumiu-as livremente, por amor a nós, e assim as tornou sacrifício agradável e eficaz em nosso favor, para Deus.
    Mas Deus precisa e exige que soframos para expiarmos os nossos pecados? Não! O sofrimento e dificuldades da vida são, em primeiro, consequência da vida, do que somos como humanos ou fruto das nossas decisões, por vezes de pecado. Mas, pode ser também uma “exigência natural” da nossa necessidade de reparação. Quando amamos alguém que ofendemos sentimos necessidade de fazer algo para provar o nosso sentimento de culpa e arrependimento, para reparar o mal cometido. O sacrifício expiatório não é exigência de Deus, que é amor e misericórdia: é exigido, sentido como necessário, por nós, pecadores,- como prova de honra!- em resposta à misericórdia de Deus.
   Assim, o verdadeiro Servo de Deus(Is.), tomou sobre si as nossa faltas, assumiu por nós a culpa da nossa desobediência a Deus; sendo inocente, sofreu a consequência dos nossos pecados, o sofrimento e a morte.  Obedeceu plenamente ao Pai (porque nós tínhamos desobedecido)  e assim afirmou –com palavra de honra! – que doravante, unidos a Cristo pela sua humanidade, seremos seus filhos.  Justificou a multidão humana –ganhando para nós a benevolência/justiça/perdão e Vida Eterna.
     Esta é a notícia, essencial e radical; o Evangelho, a Boa nova que a Igreja tem a Missão de levar a toda a humanidade, a toda a História. Neste Domingo pensamos e afirmamos a necessidade e urgência desta tarefa universal que diz respeito a todos os cristãos, cada qual a seu modo.                    Pe. António Coelho
 

sábado, outubro 10, 2015

Sabedoria... para Viver!


                                       28º Domingo comum B     2015  
   A Palavra de hoje abriu com a oração do rei Salomão pedindo a Sabedoria (7,7-11) para bem dirigir o seu povo. Na Bíblia, a Sabedoria é a virtude humana, reforçada pela fé e inspiração divina, de decidir e agir com prudência e sensatez, com inteligência e boa vontade, procurando a verdade e o verdadeiro bem das pessoas e do mundo, segundo a vontade de Deus.
   Por isso essa Sabedoria é mais preciosa que o poder do ceptro e do trono, que o oiro e riqueza; até mais que a saúde e beleza. Pela Sabedoria alcançamos os verdadeiros bens, que são essenciais à vida pessoal e comunitária, agora e para o futuro.
    Uma boa prova disto é-nos dada pelo Papa Francisco na sua encíclica “Louvado sejas”. Ela é um alerta constante, em todas as suas páginas, para a falta de sabedoria e sensatez em gerirmos a vida do planeta e de todos os humanos. Ao denunciar os crimes ambientais, a destruição da vida, o esgotamento dos recursos, a desigualdade e injustiça gritante que ameaça a paz mundial… ele vai apontando as causas profundas e o remédio difícil de tudo isto: o egoísmo, a sede de lucro e de bem estar, o esquecimento de Deus e dos outro. Claro que o remédio está em mudar o nosso género de vida, a sobriedade e alguma austeridade, pensando nos outros e no futuro dos nossos; em adquirir valores  morais que respeitem Deus e o seu projecto sobre a criação.  Em cada página está clara a falta de sensatez e sabedoria – apesar da muita inteligência e poder técnico que possuímos – que vai levando a natureza ao esgotamento e a humanidade ao caos.
    A carta aos Heb. (4,12-13) reforça e esclarece. A verdadeira sabedoria vem-nos da escuta, reflexão  e cumprimento da Palavra de Deus. Ela dá-nos a capacidade de conhecer em profundidade e pormenor a verdade sobre as coisas, sobre a vida e sobre as pessoas e agir de forma acertada. E será por ela, por essa Palavra, seguida ou rejeitada, que um dia seremos avaliados. Porque a Palavra, afinal, é o próprio Jesus, Filho de Deus incarnado, que um dia nos julgará.
    No Evangelho (Mc.10,17-27)  temos um exemplo bem concreto e subimos de nível. A sabedoria de bem viver não importa só para agora nos entendermos. Ela é condição e caminho para a Vida Eterna, plena, como perguntava um homem a Jesus e este lhe confirma. E o essencial deste saber viver bem está no código dos dez mandamentos …que o homem até já cumpria.
    Mas havia um “senão”! Aquele homem cumpria bem a Lei, mas o seu coração estava preso aos bens; a sua riqueza ameaçava prendê-lo mais a esta vida do que a libertar-se para a Vida Eterna. Por isso Jesus adverte-o: Falta uma coisa! Troca o tesouro da terra pelo do céu: usa os teus bens para amar e fazer o bem. E o homem amuou e voltou para casa!
   Neste contexto volto à Encíclica do Papa, nº 231: “O amor, cheio de pequenos gestos de cuidado mútuo, é também civil e político, manifestando-se em todas as acções que procuram construir um mundo melhor. O amor à sociedade e o compromisso pelo bem comum são uma forma eminente de caridade, que toca não só as relações entre os indivíduos, mas também as macrorrelações como relacionamentos económicos sociais e políticos. Por isso a Igreja propôs ao mundo o ideal de uma civilização do amor. O amor social é a chave para um desenvolvimento autêntico … Neste contexto, juntamente com a importância dos pequenos gestos diários, o amor social impele-nos a pensar em grandes estratégias que detenham eficazmente a degradação ambiental e incentivem uma cultura do cuidado que permeie toda a sociedade. Quando alguém reconhece a vocação de Deus para intervir, juntamente com os outros, nestas dinâmicas sociais, deve lembrar-se que isto faz parte da sua espiritualidade, é exercício da caridade e, deste modo, amadurece e se santifica”.                          Que bom seria que os nossos políticos alcançassem este nível de compreensão do serviço público!
   Muitos cristãos, jovens, homens, mulheres, famílias, são, por esse mundo, um bom exemplo desta acção cívica e sobrenatural, deste “vender e deixar tudo para dar-se”: são os que trabalham mais directamente no campo das Missões, e que neste mês especialmente lembramos e podemos ajudar.                                                                                                                               Pe. António Coelho
 

sexta-feira, outubro 09, 2015

A FAMÍLIA


                                         27º Domingo Comum B    2015     
   Em Roma começa hoje o Sínodo sobre a família, continuando o tema do ano passado. Bispos, sacerdotes e leigos de todo o mundo, levando a reflexão e a vida de inúmeros cristãos de todo o mundo, vão pôr em confronto o ideal da família que Deus quis e quer, e que é melhor para o ser humano … perante a realidade da família dos nossos dias, viciada por outros conceitos, destruída por um género de vida que esfarrapa o agregado familiar, e pelos Estados que, cada vez ,mais tomam posse das funções familiares, como donos de tudo e de todos, desde o berço à escola, do emprego à reforma,… até qualquer dia poderem ditar e marcar a nossa morte?!
    Perguntaram a Jesus, manhosamente, se era legítimo, quando o homem quisesses ou se fartasse, devolver a mulher aos sogros! Apoiavam-se numa lei de Moisés que teria tolerado o repúdio em certos casos.  E porquê? Jesus põe o dedo na ferida: foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés concedeu essa excepção. Isto é: o machismo de alguns maridos, a prática da infidelidade, a consideração da mulher como objecto de serviço e prazer …forçara a lei conceder-lhes o direito ao repúdio. A prática da vida tornou-se lei; a falha e a corrupção tornou-se legitimidade e valor.
    Jesus não se deixa levar. Por isso adianta: "no princípio", isto é: : no projecto inicial, no fundo dos corações, no auge do namoro, na alegria do casamento, não era assim que pensáveis!… porque então, com toda a alegria e paixão, o homem são uma só carne, uma só vontade,um só projecto; numa união natural, sagrada, que o homem e a sociedade não têm direito a destruir…pois se destrói a si mesmo e à sociedade. 
   Jesus reafirma assim o conceito de família - natural e universal-  que nos dá o relato de Gn.: homem e mulher formam um só; são iguais e da mesma natureza; necessitam-se e complementam-se; formam com os filhos uma "comunhão trinitária", sendo assim a melhor imagem de Deus-Família.   
     Estejamos atentos –e críticos!- às notícias que vamos ouvir nos próximos dias. Hoje acontece o mesmo. O mundo de hoje quer que Deus legitime, aprove e assine o que a nós nos apetece ser e fazer. Porque não queremos sujeitar-nos à lei de Deus inscrita na consciência e na Revelação , queremos que Deus se sujeite e aprove os nossos caprichos e falhas que, ainda por cima, com arrogância e atrevimento, julgamos mais humanos e modernos, sinal de liberdade e personalidade.  Até ao ponto de chegarmos à pretensão – e o mais que veremos ainda?!- de um forte movimento, hoje, a pretender que o ser humano não nasce homem nem mulher. Nasce de "género indefinido". Vai-se fazendo e escolhendo: se que ser homem, mulher ou misto.  A tal ponto quisemos a igualdade ... na educação, no vestir, no trabalho, nas funções sociais que chegámos à confusão de já nem sabermos o que somos. Esquecemos que nossa grandeza e dignidade pessoal, e a sorte e riqueza da sociedade, está precisamente em sermos diferentes e complementares e assim sermos mais ricos e completos pela comunhão.
   É evidente que uma coisa são os casos excepcionais e pontuais, que têm direito à diferença, merecem o nosso respeito e integração… outra coisa é a legitimação e igual valorização de hábitos e viveres marginais que se querem impôr como normais.
    Penso que a carta aos Hebreus nos dá a chave que explica muito disto. Diz que Jesus, ao incarnar, apesar de ser Deus e todo poderoso, de tudo poder resolver com facilidade, sem esforço, quis chegar à perfeição humana e à glória, pelo caminho da obediência a Deus, do esforço e do sofrimento.  Ora a nossa civilização quer chegar à perfeição/felicidade humana (?) pelo caminho da “autonomia, da independência" , do endeusamento pessoal, da afirmação incondicional dos direitos e apetites, da facilidade, do hedonismo, da abolição da cruz em todas as suas expressões … e, por isso, quer ignorar tudo o que seja fidelidade às opções e compromissos, responsabilidade, sofrimento pelos outros, especialmente no projecto comum dos filhos.
  Que o Sínodo nos traga algumas respostas a alguns problemas. E que as famílias redescubram a Verdade da sua grandeza... para salvação delas e da sociedade.               (Pe. António Coelho)