Mensagem de D. Manuel Felício para a Quaresma 2017



A Quaresma: Tempo de conversão a Deus e ao outro


A Quaresma, com o número simbólico dos seus quarente dias, é convite de conversão a Deus, não só para recusarmos o pecado na nossa vida, mas também para fortalecermos a amizade com Ele. É o tempo favorável para intensificarmos a nossa vida espiritual, através dos meios tradicionais que a Igreja nos oferece, como são o jejum, a oração e a esmola, mas principalmente pelo acolhimento da Palavra de Deus que havemos de saber escutar, meditar e partilhar com mais assiduidade ao longo destes 40 dias. A nossa conversão não ficaria completa se não incluísse a conversão ao outro que é, por si mesmo, sinal e presença de Deus para cada um de nós. Se, como sublinha o Papa na Sua mensagem, “fechar o coração ao dom de Deus que fala tem como consequência fechar o coração ao dom do irmão”, o contrário também é verdade. Quanto mais abrimos o coração a Deus mais sentimos necessidade de ir ao encontro dos irmãos, sobretudo dos mais fragilizados. Para aprofundarmos o caminho da nossa conversão a Deus, precisamos que durante este tempo de Quaresma, haja momentos fortes, nas comunidades cristãs, de encontro com a Palavra de Deus. Por isso é importante que, de semana a semana, os grupos que preparam a liturgia dominical dediquem tempo significativo a ler a palavra de Deus própria desse domingo, a meditá-la, com ajuda de algum comentário, a partilhá-la e a contemplá-la em termos que possam motivar atitudes de vida nova. Recomenda-se que esta preocupação chegue não apenas aos grupos corais; mas também a grupos de leitores, de acólitos e de outros serviços paroquiais. O apoio de comentário pode ser aquele que é publicado semanalmente no jornal diocesano A GUARDA, procurando nós que seja colocado também no site da Diocese. Na medida em que se consolidar esta prática nas nossas comunidades, também as homilias dos sacerdotes e dos diáconos, sobretudo nas assembleias dominicais, sairão beneficiadas. Para aprofundar a nossa espiritualidade, neste tempo especialmente favorável, é bom que em cada arciprestado, dentro da nossa tradição diocesana, se organize pelo menos um retiro, que seja anunciado em todas as paróquias. Não esqueceremos que esta quaresma precede imediatamente a celebração do centenário das Aparições de Fátima. E como lembra a carta pastoral da Conferência Episcopal sobre este centenário, a mensagem de Nossa Senhora aos três pastorinhos é uma bênção para a Igreja e para o mundo. E, como tal, interpela-nos para uma atitude orante diante da Santíssima Trindade. Convida-nos à contemplação, à compaixão e ao anúncio da Boa Nova, segundo o modelo das três crianças. Por sua vez, a presença e o olhar de Maria, como o sentiram os videntes, é mensagem de ternura e misericórdia que o mundo de hoje precisa, mais que nunca. E é bom lembrar que, no centro da mensagem de Fátima, está o convite à conversão para que a guerra pudesse acabar e a paz regressasse à vida das pessoas e das Famílias. O Papa insiste, na sua mensagem, em que é preciso “abrir a porta do nosso coração ao outro, “seja ele o nosso vizinho, seja o pobre desconhecido. Ora, todos nós, ao longo dos últimos tempos, temos sentido o drama dos refugiados que fogem da guerra que se instalou nas suas terras e insistentemente batem às portas da Europa, sobretudo atravessando as águas do Mediterrâneo, onde muitos milhares já perderam a vida. É necessário encontrar formas de acolher estes irmãos nossos, mas é ainda mais necessário tentar que voltem a ter condições de vida nas suas terras. No meio dos muitos dramas que afetam aqueles que fogem há o drama específico das comunidades cristãs do Iraque e da Síria que, sendo lugares com comunidades cristãs que remontam ao tempo dos apóstolos, agora estão em risco de desaparecer. Só a título de exemplo, em 2003 havia 1 milhão de cristãos no Iraque, agora não chegam a 250 mil, muitos deles deslocados das suas terras e das suas casas. Nos lugares onde se implantou o chamado Estado Islâmico, consta que os Jihadistas davam três saídas possíveis aos cristãos que ali viviam, a saber, ou deixarem o cristianismo e converterem-se ao Islão radical que eles propõem, ou pagarem uma quantia mensal em dinheiro ou irem embora. Perante situações como estas, o Bispo de Mossul (antiga cidade bíblica de Nínive) desabafou assim: “Não há cristãos na minha diocese. Sou um Bispo sem diocese”. Mas acrescentava que surpreende a constância na Fé de muitos destes cristãos. Perante o quadro dramático das comunidades cristãs do Iraque e também da Síria, este ano vamos destinar-lhes a nossa renúncia quaresmal. E far-lha-emos chegar através da Fundação “Ajuda à Igreja que sofre” que o Papa Francisco expressamente convida a “fazer por todo o mundo uma obra de misericórdia”.
Guarda, 19-02.2017
+Manuel da Rocha Felício, Bispo da Guarda

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